Só preços afetam o comércio varejista
A Pesquisa do Comércio do mês de junho, divulgada ontem pelo IBGE, reforçou certamente a convicção do Banco Central em favor da manutenção de uma política monetária austera nos próximos meses, pois, a despeito do Comitê de Política Monetária (Copom) ter passado a elevar a taxa Selic desde abril, ainda se está verificando crescimento das vendas do comércio varejista: 0,4% em abril, 1,0% em maio e 1,3% em junho. No primeiro semestre, o crescimento das vendas do comércio foi de 10,6%, e de 14,1% no comércio varejista ampliado, que inclui as vendas de veículos e de material de construção.
O único setor onde as vendas recuaram (-0,8%) foi o de artigos de uso pessoal e doméstico, que inclui bens cuja compra pode ser facilmente adiada. O exame das vendas por setor mostra claramente que as famílias estão muito sensíveis ao fator preço. O setor de combustíveis, por exemplo, teve o maior crescimento, (2,1%), pois o governo, para apresentar dados de inflação melhores do que os de outros países, não repassou no preço da gasolina todo o encarecimento do petróleo.
Em compensação, verifica-se que as vendas dos supermercados, em volume, apresentam um crescimento medíocre (0,4%), em razão da forte alta dos produtos alimentícios, refletida no aumento do faturamento em termos nominais, de 2,1%.
Pode-se estranhar que, em volume, o setor de tecidos, vestuário e calçados tenha apresentado crescimento de 1,7% e de 9,4% no faturamento. A impressão que se tem é de que a economia que as famílias fizeram com a alimentação, nos seus orçamentos, serviu para as compras de vestuário e de produtos importados, com preços em queda por causa da evolução da taxa cambial e vendidos a prestações.
O prazo parece ser um fator essencial nas vendas a crédito do comércio, especialmente numa fase em que a inflação está reduzindo os salários reais. Verifica-se que as vendas de veículos cresceram 1,7% (9,4% em valor), em junho, e as vendas do setor de informática e comunicação, 1,5%.
Há um bom desempenho das vendas de livros e papelaria (1,5%) decorrente do calendário escolar.
O fato é que se quiser reduzir a demanda, o Banco Central terá de tentar regulamentar as vendas a prestações. O aumento da taxa de juros a cada mês tem um efeito sobre as vendas, mas boa parte do comércio compensa esse aumento pela ampliação dos prazos do crediário.
Fonte: Estadão Online
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