Falando sobre o Natal
Nestes meus anos como colunista, apenas uma vez saí do tema de Recursos Humanos, e hoje, pela segunda vez, o farei.
Geralmente nesta época do ano faço um balanço sobre o período passado e algumas avaliações sobre o ano que entra, e ainda tenho alguns textos urgentes a colocar no ar, especialmente sobre o trabalho da mulher e reclamações trabalhistas, já prontos, mas os fatos deste ano me fizeram escrever esta coluna de maneira diferente da usual.
Neste ano passamos em família um grave problema com minha filha menor, daqueles em que apenas uma em cada 50 sobrevive não pela raridade, mas pela força da enfermidade e violência dela. Uma daquelas situações pelas quais os pais rezam para não passarem nunca.
Por sermos mais fechados e racionais, eu e minha esposa sempre acreditamos que apenas manifestar nossos apoios aos que sofrem ajudam e atrapalha menos que ficar onipresentes no apoio presencial.
Por minha fé, acredito em muitas coisas e sei que a morte não é o inimigo a ser vencido, mas o amigo a quem devemos encontrar um dia e que nos levará ao nosso ponto de destino original. E na primeira noite de internação hospitalar, definitivamente me preocupei em como contar a minha esposa sobre a morte de minha filha, que parecia próxima e concreta. Certas coisas a vida nos ensina, e uma delas é saber que quando um médico olha um raio-X e solta um palavrão é porque a coisa ficou feia mesmo. No caso dela foram muitos os que soltavam expressões de susto. Por isso minha preparação pra a sua morte iminente.
E neste período assustador, de pensamentos atemorizantes e realidade nada animadora, surgiu algo que me fez escrever este texto:
- SURGIU O NATAL!
Não o natal do Papai Noel e dos presentes e comidas, até porque isso foi entre outubro e novembro, mas o natal da palavra real, o nascimento, ou o renascimento como se esperaria que fosse.
No natal, sempre se muda o clima e as pessoas são mais cordiais, mais alegres e mais solidárias, mais unidas e mais otimistas, mesmo quando as coisas são ruins. Este natal surgiu em nossas vidas!
Minha filha não ressurgiu dos mortos, porque por uma benção divina ela não nos foi tirada, mas as pessoas começaram a mostrar um lado bonito e humano, solidário, de forma que muitas vezes cremos não existir mais.
Nestes dias em que passamos no hospital, acompanhando cada segundo de respiração e cada percentual de saturação do oxímetro, cada batida de coração que o monitor mostrava, contando coma eficácia da equipe técnica, apareceram pessoas que nos são muito queridas, mesmo aquelas mais sumidas.
Pessoas que nunca imaginávamos apareceram para nos oferecer o conforto dos abraços, a companhia das vigílias e a fé de suas preces.
De bispo a pai de santo, pessoas se uniram pedindo ao criador que ela ficasse boa e voltasse a ser feliz, sem seqüelas, surgiram pessoas com brinquedos, águas bentas, remédios milagrosos e alimentos que ela gostava, só para que ela pudesse reagir mais e ficar boa. Não falo apenas de pessoas da família, falo de vizinhos, colegas, membros da igreja que freqüentamos e pessoas que nunca vi o rosto e que nunca a viram, mas que são amigos de amigos de amigos.
Num momento em que nossos outros filhos precisavam de nossa atenção e carinho, apoio nosso, tivemos gente que nos apoiou levando-os para descansar em suas casas e brincar com seus filhos, minimizando suas angustias e medos, pois eles várias vezes os manifestaram. Falo de professores e conselheiros que compreenderam e apoiaram nossos filhos além do obrigatório, pelo carinho e compreensão da situação, ainda mais em época de provas finais.
Falo de porteiros pacientes com as visitas intermináveis que havia, de enfermeiros que além do técnico davam carinho e conforto, falo de médicos que se preocupavam e iam ver minha filha fora de seus horários, alguns até cancelando consultas, falo de senhoras cuidadosas que eram as responsáveis pela alimentação de minha filha, mas que mesmo às 2:00 da manhã a atendiam com carinho e cuidado os desejos dela por leite que não conseguia tomar ou de frutas. Falo de pessoas que nos visitavam com palavras de conforto e amizade, pessoas que poucas vezes víamos e que no entanto nos apoiavam. Falo de padres que foram dar bênçãos, sacerdotes diversos que comandavam círculos de orações e trabalhos espirituais por uma menina que nem conheciam. De gente pedindo orações em rádios, de gente que nos circundou com amor e carinhos únicos e vitais nestas horas.
Falo de amigos que fizeram questão de nos abraçar quando voltamos ao nosso dia a dia após a sua alta, com real alegria e júbilo.
Seus nomes? São demais e alguns desconhecidos para colocar em uma lista, anônimos mesmo. Mas todos nos deram um presente único, não só a minha família, mas a muitos médicos e pessoas à nossa volta:
-Mostraram que existe amor e esperança no nosso mundo frio e duro, e mostraram que existe um Ser maior, chamado de nomes como Deus, Luz Divina, O Inominável, El, Eli, Oxalá, sei lá quantos mais, e que ele age de forma mais indecifrável quanto seu nome real, e ele nos abençoou com um natal de renascimento de fé e de crença na humanidade, na amizade e no apoio humano.
Mostrou-nos que o maior presente de nossas vidas é a própria vida e que suas conseqüências são uma forma de darmos valor a ela e aos que vivem ao nosso lado. Negros, brancos, ricos, pobres, urbanos, rurais, letrados ou iletrados, todos reconhecemos que um Ser maior, um Deus existiu e este interferiu na saúde de minha filha, mesmo médicos, mas eu reconheço que este Deus nos deu muito mais que a vida dela, nos deu a chance de sermos felizes e sabermos o quanto as pessoas são boas e o quanto a humanidade tem futuro se seguir assim. Meu filho mais velho me perguntou sobre lágrimas ao falar destas pessoas e de suas reações e eu digo que forma um tesouro encontrado, algo de júbilo e que um dia ele descobrirá o real valor disso. Para muitos de nós, foi o milagre de natal, do verdadeiro natal, do renascimento do amor e da luz, que é o sentido maior do Natal Cristão e espero que seja o sentido maior de todos os seres humanos. Hoje eu falo de um natal de vida e de luz, de pessoas que fizeram este Natal verdadeiro, em outubro e novembro, e que espero que para elas seja sempre Natal também.
Agradeço o tempo e a atenção, logo eu volto falando sobre o que temos que falar, sobre trabalho, mas hoje me dei ao luxo de poder falar sobre Deus, de evangelizar em todas as religiões que possam entender que evangelho significa boa nova e não apenas a palavra de Jesus, e que Judeus, Muçulmanos, Espíritas, Umbandistas, Cristãos, Budistas ou seja lá quantas outras religiões existam mas falam de um Deus de amor. Falo do milagre único da vida e da beleza que este Criador nos deu: Solidariedade e amor ao próximo.
Desejo a todos um ótimo natal! O Meu já está sendo!
Até breve.
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Ernani Ribeiro de Paiva Jr. - 46 anos Cursou Psicologia, atuou em diversas empresas Nacionais e multinacionais, em posições de Gerência e Diretoria, sempre responsável pela implantação e saneamento da área. Profissional com larga atuação em RH, generalista, além de sua especialidade em Saneamento, trabalha com negociação sindical, com treinamentos e Hunting. Já atua há mais de 15 anos como consultor tendo grandes empresas em seu leque de clientes, bem como palestrante em universidades e cursos diversos.
Publicado em Ernani Ribeiro
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